Projeto Café Literário ganha reforço com etnografia sobre ritual do candomblé
'O Dom do Segredo' integra a Coleção Mulheres Extraordinárias e é fruto de pesquisa de mestrado; antropóloga alagoana, autora destaca alcance da iniciativa
Bruno Soriano
Remir a pena por meio do estudo e do trabalho é um direito do reeducando. Mas Resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também garante a leitura como importante ferramenta de reintegração social. Em Alagoas, um programa criado em 2022 vem fortalecendo a saúde emocional dos apenados, que trocam a ociosidade pelo conhecimento. Trata-se do "Livros que Libertam", cujo objetivo é promover cidadania e disseminar a cultura entre os presos.
Cada reeducando pode ler um livro por mês, reduzindo, assim, quatro dias da pena. E foi para reforçar a assistência à pessoa privada de liberdade que a Secretaria de Ressocialização e Inclusão Social (Seris) criou o projeto Café Literário. Parte integrante do Livros que Libertam, o projeto também proporciona ao reeducando a chance de conhecer autores cujas obras abordam temas como a resistência histórica e a força da ancestralidade dos povos de terreiro.
A iniciativa, inclusive, caminha em paralelo à política de assistência religiosa, que reúne várias denominações. Uma delas é o candomblé, cujo representante, o babalorixá Pai Manoel do Xoroquê, já mobiliza dezenas de reeducandos do Presídio Cyridião Durval e Silva, onde o projeto teve início. E com o Café Literário, a população carcerária pode não só manifestar sua crença, mas também assumir o protagonismo de sua própria história ao reconhecer, na leitura, um horizonte de possibilidades.
Nesse sentido, a obra "O Dom do Segredo: A Negociação do Segredo Ritual nas Religiões Afro-alagoanas", de Larissa Fontes, chega para enriquecer o projeto. É que o título publicado, em 2023, pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos captura, por meio da foto-etnografia, a riqueza e a complexidade das cerimônias do candomblé, a exemplo das oferendas e da feitura do santo. O livro a ser adotado pela Seris também retrata episódios como a "Quebra de Xangô", quando, em 1912, todos os terreiros de Maceió foram destruídos.
Tamanha repressão, inclusive, levou as religiões afro-alagoanas a adotarem o segredo não apenas como uma escolha litúrgica, mas também, e principalmente, como uma estratégia de sobrevivência, ocasião em que os tambores deram lugar ao silêncio. E foi para desvendar esse segredo que a autora decidiu acompanhar a vida cotidiana de um terreiro durante um ano e, mais particularmente, nos 21 dias do chamado ritual de iniciação. Foi no Ilê Axé Legionirê, fundado por Pai Manoel, que Larissa começou, sem saber, a construir sua tese de mestrado, atentando para a necessidade de preservação desses rituais.

"Aprendi que o antropólogo precisa ser briguento. Afinal, de nada adianta fazer um trabalho que vai ficar na estante, sem que ninguém o leia. E tive a felicidade de conhecer o Pai Manoel do Xoroquê. Foi quem apostou em um trabalho que me fez antropóloga, acompanhando cada etapa de construção desse livro e seguindo todo o protocolo litúrgico. O segredo aqui descrito é menos polêmico do que se possa imaginar. Ele é traduzido, portanto, em responsabilidade, presença e experiência", avalia a fotógrafa e antropóloga.
Na introdução do livro que integra a Coleção Mulheres Extraordinárias, Larissa conta que precisou, inclusive, vencer a resistência inicial da própria comunidade de santo. "Ela [a comunidade] é muito diversa. Somos várias casas e pensamentos. Por isso é que chegaram a dizer, durante um encontro, que a divulgação do segredo enfraqueceria a religião. Mas, em meio aos debates, uma yalorixá do Ilê de Pai Manoel lembrou que foi o próprio Exu, o orixá da comunicação, quem autorizou o nosso trabalho", recorda a também professora universitária.
Doutora em Antropologia pela Universidade Lumière Lyon 2, a alagoana também é autora de "Um Museu Silencioso: A Coleção Perseverança e os Xangôs do Brasil". Publicada na França em 2022, a obra traz imagens de mais de 200 objetos que foram roubados dos terreiros durante a Quebra de Xangô e, posteriormente, abrigados no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL). No livro, Larissa avalia que os museus etnográficos vêm transformando peças litúrgicas, recheadas de significado, em itens estáticos e "sem vida", ignorando, assim, o valor espiritual de cada objeto.
Pai Manoel do Xoroquê, por sua vez, reforça o alcance do trabalho já reconhecido, inclusive, internacionalmente, agradecendo à autora pela valiosa contribuição.
"A participação da Larissa foi muito importante porque ela apresenta a nossa religião de uma forma didática. Por isso é que o livro O Dom do Segredo vai agregar bastante ao projeto desenvolvido no sistema prisional, onde os reeducandos já não têm o receio de se declarar. Foram muitas as dificuldades, em razão do preconceito, mas nunca pensamos em desistir, e é assim que seguiremos transformando vidas dentro do cárcere. Afinal, todos precisam desse tipo de assistência", destaca o babalorixá.