Esperança no cárcere: a leitura como instrumento de ressocialização
Projeto que proporciona remição de pena e fortalece assistência religiosa ganha força no sistema prisional alagoano
Bruno Soriano e Leslen Ferreira
Desenvolvido pela Secretaria de Estado da Ressocialização e Inclusão Social (Seris), o projeto Café Literário teve mais uma etapa concluída na última terça-feira (11), quando o auditório do Presídio Feminino Santa Luzia, em Maceió, foi palco de evento em que reeducandos apresentaram a vida e obra de Mãe Neide Oyá d’Oxum. Patrimônio vivo de Alagoas, a yalorixá acompanhou a encenação que teve como tema o livro “Diário de uma mãe de santo”, publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos.
Parte integrante do programa “Livros que libertam”, a iniciativa não só garante o acesso ao conhecimento, mas também proporciona a remição da pena por meio da leitura, fortalecendo, ainda, a política de assistência religiosa no sistema prisional alagoano. E é nesse contexto que o projeto Makuiu N’Zambi, idealizado pelo babalorixá Manoel do Xoroquê, conquista cada vez mais adeptos, garantindo que as pessoas privadas de liberdade possam manifestar sua crença e acessar obras de escritores alagoanos.
Na ocasião, Mãe Neide mostrou-se surpresa com o talento dos reeducandos que cumprem pena no Presídio Cyridião Durval. Emocionada, ela agradeceu a todos pela oportunidade de também difundir os saberes das religiões de matriz africana nas unidades prisionais e, dessa forma, quebrar paradigmas.
“Eu precisava ajudar de alguma forma. E sabemos que a palavra detento ainda amedronta parte da sociedade. Mas só o amor é capaz de construir um mundo com menos violência e mais oportunidades. É o afeto que nos faz pensar diferente e acreditar que essas pessoas podem, sim, refazer suas vidas e retomar o convívio social”, disse a também gastróloga e autora do livro "Wa Jeun: Sabores Ancestrais Afro-indígenas".

Para a coordenadora editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Clarice Maia, a participação no projeto reforça o compromisso da editora com a democratização do acesso à produção literária local.
“É uma honra, para todos nós que fazemos a Imprensa Oficial, integrar esse projeto. É muito gratificante poder contribuir para a ressocialização por meio da leitura, proporcionando aos reeducandos a oportunidade de se familiarizar com a nossa cultura e de conhecer autores alagoanos, a exemplo de Mãe Neide”, afirmou a jornalista, que, na oportunidade, oficializou a doação de 100 exemplares de livros - todos publicados pela Imprensa Oficial - à Secretaria de Ressocialização.
Secretária executiva de Ressocialização, Claudia Simões, por sua vez, reforçou o alcance do projeto criado em 2022 e que conta, ainda, com parceiros como a Academia Alagoana de Letras e o Tribunal de Justiça de Alagoas. “Nós temos plena convicção de que a leitura pode transformar vidas. Esse projeto não só combate a reincidência criminal. Ele é algo que cura dores, alimentando a esperança de que essas pessoas sejam tocadas, para que todas saiam daqui com uma perspectiva de futuro”, avaliou.
O evento também contou com a presença de pesquisadores como a professora Elaine Pimentel, que desenvolve pesquisas sobre políticas penitenciárias em Alagoas, e a vice-reitora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Eliane Cavalcanti, além do chefe da Divisão de Educação, Cultura e Esportes da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), Rodrigo Dias, para quem a oferta de obras de autores como Mãe Neide não só reforça a perspectiva religiosa do projeto, mas também diversifica o repertório disponível aos reeducandos.

Outro que marcou presença foi o desembargador Tutmés Airan, que ressaltou a importância de se apresentar aos reeducandos personagens que simbolizam a cultura afro-brasileira, a exemplo de Mãe Neide, classificando a iniciativa como um avanço na garantia da liberdade religiosa, tendo em vista a laicidade do Estado, e na construção de políticas que efetivamente assegurem a ressocialização.